Decifrando o El Niño
- Heleno P. Slompo

- 17 de jun.
- 2 min de leitura
Breves notas da palestra sobre o Super El Niño em 2026

Imagem de NOAA/NESDIS.
No dia 15 de junho de 2026, os professores Dr. Rafael Rodrigues da Franca (UnB) e Dra. Cássia Monalisa dos Santos (UEG) ministraram uma palestra pública para discutir a possibilidade de um evento de Super El Niño entre os anos de 2026 e 2027. Ao longo da roda de conversa, o Dr. Rafael explicou de forma didática a formação do fenômeno ENOS, enquanto a Dra. Cássia apresentou os impactos socioeconômicos envolvidos e a relação com as mudanças climáticas. Neste post, abordarei os principais pontos debatidos, trazendo notas e algumas análises complementares para enriquecer a breve discussão.
Ao caracterizar o El Niño, os pesquisadores da apresentação o consideram como um componente fundamental da variabilidade interna do sistema climático terrestre, possuindo uma longa história geológica evidenciada por registros paleoclimáticos e de isótopos. Portanto, é um evento natural. Longe de ser apenas uma anomalia remota, ele representa a fase quente de um ciclo acoplado entre o oceano e a atmosfera conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Este fenômeno é o efeito de interações complexas e não lineares, que são regidas por feedbacks como o de Bjerknes, em que as anomalias na temperatura da superfície do mar (TST) interferem nas respostas atmosféricas que, por sua vez, amplificam o aquecimento inicial.
O ciclo ENOS é capaz de alterar drasticamente a estrutura do oceano, modificando o posicionamento da termoclina. Durante o El Niño, a termoclina se aprofunda no Pacífico oriental, reduzindo a ressurgência de águas frias, enquanto o oposto ocorre na fase de resfriamento (La Niña). A ciência moderna reconhece uma diversidade desses eventos no fenômeno: o El Niño Canônico (do Pacífico Oriental), com aquecimento máximo na costa da América do Sul, e o El Niño Modoki (do Pacífico Central), que apresenta impactos regionais e teleconexões atmosféricas distintas. Em outras palavras, o Oceano Pacífico age como uma “piscina”, que muda seus gradientes de temperatura em consonância com a dinâmica climática.
Para a classificação de um evento ENOS, geralmente se utiliza o Índice de Niño Oceânico (ONI), que monitora a média móvel trimestral das anomalias da TST. Um El Niño é oficialmente reconhecido quando o limiar de +0,5°C é ultrapassado de forma persistente. Eventos extremos ou "Super El Niños" podem atingir anomalias superiores a +2°C ou até +2,5°C, em casos particulares. Essa dinâmica oceânica está intrinsecamente ligada à Oscilação Sul, medida pela diferença de pressão barométrica entre Tahiti e Darwin (Austrália), o que reflete o enfraquecimento da Circulação de Walker e a alteração da subsidência atmosférica.
Esses eventos extremos, efeitos do aquecimento global médio e da intensificação do El Niño, são paralelos entre si e se expressam por meio de chuvas extremas, ao passo que, em outras áreas, ocorre o prolongamento da estiagem. O Dr. Rafael Franca trouxe a perspectiva de redução da precipitação após o período climatológico de seca (de maio a setembro) em parte do Brasil. Caso haja um prolongamento desse cenário, com o decaimento lento da seca severa, o volume de chuva na primavera e no verão pode comprometer a reposição das reservas hídricas do subsolo, desencadeando uma crise em cascata e uma crise hidrossocial. Os modelos são continuamente atualizados e suas consequências ainda serão avaliadas pelos pesquisadores.



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