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Clima, um risco silencioso

  • Foto do escritor: Heleno P. Slompo
    Heleno P. Slompo
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

A incerteza dos efeitos climáticos no cenário de urgência ambiental


O fato é que a conta chegou. As mudanças decorrentes da exploração exaustiva dos recursos naturais da Terra, já debatidas neste blog, têm raízes que remontam do século XIX e se aceleraram a partir de 1950. A tendência não é de melhora; pelo contrário, uma parcela cada vez mais expressiva da população mundial passou a viver sob o chamado "risco climático". Atualmente, cerca de 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas habitam áreas vulneráveis às transformações do clima, segundo a ONU. O mais preocupante é que uma grande parcela já se mostra incapaz de lidar com as adversidades ambientais em curso e com as ameaças projetadas por especialistas para as próximas décadas. Este texto é mais uma oportunidade para se debater o tema e reconhecer que o risco climático atua como uma analogia à "cebola": uma sucessão de camadas que não se restringem aos danos físicos imediatos, mas que englobam diversos outros impactos socioeconômicos em desenvolvimento. Como bem refletia o sociólogo Ulrich Beck, os riscos da modernidade ganharam uma nova roupagem: tornaram-se globais, abstratos, invisíveis, imprevisíveis, universais e transtemporais, atingindo gerações ainda nem nascidas.


O mundo inteiro está em risco, pois todos somos intrinsecamente dependentes dos processos da natureza. Muito se discute sobre os perigos que ameaçam ilhas e áreas costeiras, inevitavelmente expostas ao aumento do nível do mar. Da mesma forma, eventos extremos como chuvas torrenciais e secas severas representam faces opostas de um mesmo fenômeno: as mudanças climáticas. Ambos trazem consequências graves, seja pelo déficit hídrico ou pelo excedente hídrico. Esses são exemplos de riscos agudos, as ameaças que se manifestam de forma intensa, mas localizada no tempo e no espaço. Ondas de frio e calor também se enquadram nessa categoria, pois atuam em picos de alguns dias e geram impactos imediatos e significativos. Mas cita-se aqui também os riscos crônicos, que não se apresentam como estopins, mas permanecem como uma sombra contínua sobre a sociedade. São os efeitos persistentes das mudanças climáticas, que se acumulam silenciosamente e moldam o cotidiano, demandando adaptações nem sempre viáveis.


Existem também os chamados riscos de fundo, em que ameaçam diretamente as estruturas econômicas e comprometem retornos financeiros possíveis. Nessas situações, o gerenciamento não se dá por soluções extraordinárias, mas pela eficiência adaptativa e pela resiliência, com ênfase nos cobenefícios (medidas que, além de mitigar impactos, geram ganhos paralelos para a sociedade e o meio ambiente). Para muitos grupos que já vivem essa realidade, se mostra inviável apostar em tecnologias de alto custo que exigem recursos adicionais. Isso dado que os custos operacionais e de capital tendem a se tornar cada vez mais pesados, acompanhando o ritmo das mudanças ambientais. Essas pressões configuram externalidades crônicas: não são eventos isolados, mas forças permanentes, materiais e reais, que se manifestam de forma crescente e integrada. Elas desestruturam o cenário econômico e social silenciosamente.


Outros riscos crônicos que vêm ganhando atenção nos estudos são os riscos imateriais, capazes de gerar instabilidades profundas, como os riscos à saúde e os riscos de mudanças culturais. Embora nem sempre sejam discutidos, sua relevância deve estar longe de ser reprimida pelo público. As mudanças climáticas, por exemplo, podem alterar os trajetos de comunidades, obrigando pessoas a abandonar aspirações, sonhos e projetos de vida. Essa perda silenciosa de perspectivas, causada pela incerteza, é um risco que transforma a própria humanidade. Porque viver sob a dúvida constante sobre se haverá água suficiente em determinada região, alimento disponível no futuro ou se uma cultura de subsistência resistirá por mais tempo, é uma forma de vulnerabilidade irrestrita no tempo. Da mesma maneira, famílias que habitam áreas de risco convivem com o medo recorrente de enchentes que podem destruir suas casas a qualquer momento, como indicado no documentário “Clima de Risco”, apresentado na TV Cultura.


Muito se fala em riscos materiais, porque o ser humano é dependente de tudo que é tangível. No entanto, esquece-se que a imaterialidade da consciência é justamente o que diferencia os humanos de outros seres. Essa dependência exclusiva do material leva a políticas públicas seletivas, voltadas apenas para o risco imediato e mensurável, enquanto negligenciam o medo, a insegurança e a vulnerabilidade cotidiana de diversos grupos. Esse processo configura um racismo ambiental velado, que invisibiliza grupos inteiros ao reduzir suas experiências a estatísticas de probabilidade, ignorando o risco real vivido na dimensão que aqui se discute como subjetivamente humana e, sobretudo, da vida.

 

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