Geopsicologia Aplicada: a relação espaço-mente

Uma proposta de análise sobre o “homem e espaço vivido”

Imagem de Dorothy Dehner
O ser humano é movido por emoções que se conectam intrinsicamente com o “espaço vivido”. Diante disso, este texto discute como os elementos ambientais influenciam a modelagem do comportamento e de que forma essa dinâmica contribui para a compreensão das relações sociais. Tendo como base a Geopsicologia, aqui se propõe uma contribuição científica para compreender a relação do espaço geográfico na psique humana. Vale destacar que a Geopsicologia se apoia em discussões teóricas já consagradas na geografia humanista como a fenomenologia, a geoansiedade e a geografia do medo, vertentes que tratam de afetos e conexões estruturadoras do comportamento, mas que ainda carecem de investigações capazes de ampliar o conhecimento teórico sobre a relação entre o homem e o seu espaço de vivência.
Embora a influência do espaço no comportamento humano seja objeto de estudo de áreas como a Ecopsicologia, seu foco é dimensão natural, sem explorar outros espaços de manifestação comportamental, como as áreas urbanas. A Geopsicologia, em contrapartida, investiga o espaço de forma holística, integrando as dimensões social e ambiental. No aspecto ambiental ela se integra imprescindivelmente com a Geografia Física. Uma das abordagens é à análise das vulnerabilidades socioambientais em áreas de risco sujeitas a desastres que impactam comunidades locais. Populações vulneráveis, muitas vezes marginalizadas e sem alternativas habitacionais, sofrem os efeitos psicossociais dessa condição que refletem nas dinâmicas do dia a dia de forma muito presente, se diferenciando de grupos de zonas seguras. Nesta perspectiva crítica, se considera um espaço do medo e de segregação social.
Em âmbito urbano, a Geopsicologia pode ser apreendida a partir da expansão das redes e da integração de territórios anteriormente isolados. Essa dinâmica ficou evidente em um estudo conduzido em 2024 na Região Metropolitana de Manaus, cujo objetivo foi analisar os reflexos socioespaciais da Ponte Rio Negro na ligação com Iranduba (AM) O estudo observou a alteração da acessibilidade geográfica, o que reconfigurou o cotidiano e o psiquismo da população local. Os habitantes sinalizaram um crescimento na sensação de insegurança devido à elevação dos índices percebidos de criminalidade. O empreendimento também desestruturou o comércio de pequena escala associado ao transporte hidroviário tradicional, desencadeando mutações socioespaciais e comportamentais que reverberam na dinâmica territorial contemporânea.
A Geopsicologia também se manifesta através da cultura, visto que cada grupo social possui fundamentos baseados na construção (multi)paradigmática. de tudo o que o indivíduo vivenciou em seu lugar. Ou seja, ao partir a observação da microescala à macroescala, há uma jornada que exige a compreensão do embricamento da escala geográfica na vida humana. Para ilustrar essa dinâmica, pode-se observar o seguinte exemplo: um indivíduo nascido no interior do Estado do Amazonas difere, em termos comportamentais, de outro nascido no interior de Pernambuco, uma vez que suas rotinas são moldadas pelas condições impostas por suas respectivas realidades. Caso ambos troquem de lugar, precisarão se adaptar ao novo espaço para evitar conflitos de vivência, um processo que dependerá diretamente de uma reconfiguração comportamental. Estes processos têm nuances complexas que dependem das particularidades dos indivíduos, e que não imprescidem do espaço vivido.
A mudança comportamental por meio da cultura também pode ser observada na própria divisão artificial macrogeográfica do planeta entre os hemisférios Ocidental e Oriental. Embora a globalização tenha aproximado essas realidades, ela também evidenciou o estranhamento mútuo entre Ocidente e Oriente. Esse distanciamento cultural costuma figurar como o principal estopim para problemas sociais profundos, como a xenofobia, o racismo e conflitos geopolíticos, nos quais o preconceito culmina na segregação dos grupos mais vulneráveis e na violação dos direitos humanos. Tais problemáticas territoriais são históricas e encontram eco na clássica teoria do Espaço Vital (Lebensraum), formulada por Friedrich Ratzel. O geógrafo defendia que uma sociedade necessita de um determinado espaço geográfico para sobreviver, crescer e desenvolver sua cultura; logo, a escassez de recursos ou de território submeteria seus habitantes ao sofrimento, impulsionando disputas que moldam comportamentos defensivos ou hostis até hoje.
Ao discutir o conceito de espaço vital, torna-se indispensável contrapor esse debate à perspectiva de outro clássico da geografia: Paul Vidal de La Blache. Por meio do Possibilismo Geográfico, La Blache defendia que o meio físico não determina o destino de um povo, mas oferece um conjunto de possibilidades. Sob essa ótica, cada sociedade possui a capacidade criativa e cultural de superar as limitações socioespaciais impostas pela natureza e se desenvolver de forma autônoma.
Em suma, tanto a perspectiva do Espaço Vital de Ratzel quanto o Possibilismo de La Blache corroboram, por caminhos distintos, a premissa de que o espaço geográfico interfere ativamente na vida e no comportamento humano. Essa convergência teórica evidencia a complexidade de investigar as nuances da natureza humana, demonstrando que a psique não opera de forma isolada, mas em conexão simbiótica com o seu território, espaço e lugar. É justamente nessa lacuna que a Geopsicologia se consolida como uma contribuição científica necessária: ao articular as condicionantes físicas e as possibilidades culturais, ela oferece as chaves conceituais para compreender o indivíduo contemporâneo a partir da totalidade de seu espaço vivido.
Referências usadas
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